a propaganda contra a propaganda

escrito por Mastropietro Luiz em 10/10/2008 | Sem comentários
categorias: Ad, Atitude, Pensamento

Durante muitos anos a propaganda interrompeu o conteúdo que as pessoas estavam consumindo.

As pessoas estavam afim de assistir de TV, mas tinham que pagar o preço de assistir o comercial. Elas queriam ler as matérias das revistas, mas tinham que ver os anúncios em meio ao conteúdo. As pessoas queriam ouvir músicas no rádio, mas tinham que ouvir o jingle da “Mark Color etiquetas adesivas”.

Porém, ultimamente a propaganda parece ter acordado para uma nova realidade.

Se antes os anunciantes compravam “espaços publicitários” dentro daqueles programas de maior audiência, agora algumas marcas estão trabalhando para criar programas proprietários e abolir os intervalos comerciais daqueles programas que as pessoas gostam.

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Talvez um dos casos mais emblemáticos deste movimento seja a iniciativa de Doritos “Only The Good Stuff”, um aplicativo que transforma todos os banners e propagandas que aparecem em sua navegação em conteúdos do seu interesse. Ao invés de ver o banner das Casas Bahia, você apenas verá um conteúdo do seu interesse, baseado em suas informações disponíveis no Facebook, Flickr, e outros sites dão algumas pistas sobre o tipo de coisa que você gosta. Veja só o resumo da idéia em 150 segundos:

Na semana passada, a Unilever divulgou a sua última “campanha” para o produto Vaseline, nos EUA: abolir os intervalos comerciais dos 13 episódeos da série “Friday Night Lights.”. Isso mesmo, ao invés de vender o shampoo nos intervalos comerciais, a Unilever resolveu dar um presente um pouco mais relevante para as pessoas, retirando os “reclames” e inserindo o produto em meio ao enredo do seriado.

Na mesma linha, a operadora inglesa BskyB também resolveu transmitir alguns filmes sem propaganda, e para divulgar a iniciativa usou como cenário a cidade de São Paulo no período pós Lei Cidade Limpa para passar a idéia de que “Porque você gosta de filmes sem interrupções, nós tiramos as propagandas.”

A própria Lei Cidade Limpa é um case desse novo movimento. Mas ao invés de uma marca abolindo a propaganda, foi o próprio governo da cidade. O resultado não poderia ser melhor: 62% dos paulistanos aprovaram, e este talvez seja o maior trunfo de Kassab para vencer as eleições municipais de São Paulo em 2008.

Aqui no Brasil essa onda também já começou. Até pouco tempo atrás, se quiséssemos ouvir músicas no radio teríamos que “pagar o preço” de ouvir 3 minutos de propagandas e jingles para cada 10 minutos de música. Mas a operadora de telefonia celular Oi, por exemplo, deixou de comprar espaços publicitários em outras rádios para criar a sua própria rádio, a OiFM. Uma rádio com pouquíssima propaganda, sem encheção de saco. Só com músicas, e das boas.

Todo esse movimento nos leva a crer que as marcas começaram a entender a necessidade de criar uma compensação pelo monstro que elas mesmos criaram. Durante muito tempo, interromperam e invadiram a vida dos outros, e agora começaram criar mecanismos para compensar esse fato, uma espécie de iniciativa de “responsabilidade cultural”.

Em uma analogia com a onda da sustentabilidade e da responsabilidade ambiental, é o mesmo tipo de compensação: as empresas agridem o meio ambiente e criam programas para compensar esses danos.

Os mais radicais diriam que tudo isso é a propaganda cuspindo no prato em que comeu.

De qualquer maneira, é inevitável: é a propaganda contra a propaganda.

 

No Responses to “a propaganda contra a propaganda”

  1. raponesa Says:

    muito boa reflexão

     

  2. Mauricio Says:

    Muito muito muito bom!!!

    A melhor propaganda de hoje é evitar fazer propaganda. Sensacional a materia.

     

  3. Vinícius S. Werner Says:

    É isso ai mesmo! Agora o desafio das marcas esta no marketing – comunicação como serviço. Para se tornar mais relevante na vida das pessoas. Parabéns para a Oi com a rádio, para a Doritos, Sulamérica.
    Abraços

     

  4. Leonardo Says:

    Ótimo. E é isso mesmo!

     

  5. Bruno Says:

    Se eu não me engano era Mack Color, e não Mark Color. :)

     

  6. Claudio Says:

    Eu nao votei no Kassab, mas não tenha duvida que melhorou muito o visual da Cidade com esta limpeza visual.

    ótimo texto, boa perspectiva

     

  7. Fernando Palacios Says:

    excelente post! E mesmo o mais radical não poderá contra-argumentar o fato de que algo alguma coisa está mudando no papel da propaganda. E já não era sem tempo, afinal veio o novo milênio, a tecnologia da informação avançou espantosamente e a sociedade está cada vez mais voltada para o consumo… Só o modelo da propaganda que continua praticamente o mesmo desde a década de 60.

    Mas não é uma questão de cuspir no próprio prato, já que ninguém duvida da função que a propaganda: financiar o conteúdo. Sem propaganda a TV aberta jamais teria existido. Além disso, eram poucas as opções de veículo e nenhum deles interativo. Fora que muitos produtos de consumo e as pessoas só precisavam saber de sua existência. Não havia problema algum em veicular um anúncio – que não deixa de ser um conteúdo – totalmente distoante da programação.

    Mas no mercado atual e o excesso de produtos semelhantes, não basta dizer que existe. E mesmo isso não é mais uma tarefa muito fácil diante do acúmulo de opções de veículos e conteúdo. Com o poder da opção, vem o poder de ignorar o que não interessa. E o que interessa ao consumidor não mudou muito, afinal, continuam vendo TV, lendo jornal, navegando na internet…

    O problema é que a migração da propaganda para dentro do conteúdo não está sendo exatamente fácil. E é aí que – na minha opinião – entra a propaganda contra a propaganda… Afinal, criar um anúncio dentro do programa pode até resolver o probelma de ser ignorado, mas vem um pior, que é o desprezo. O objetivo de quem anuncia é vender, mas há formas mais refinadas de persuadir alguém a comprar alguma coisa do que dizer “compre isso aqui”.

     

  8. OESQUEMA/Conector » Arquivo » É ou não é? Éééééé… Says:

    [...] pouco, um post interessante no Estalo relacionou uma série de ações publicitárias que usa como tema a negação da [...]

     

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